otototoi

a pair of solar-powered whistling sunglasses

realmonstrosities:
Neo Rauch

a hora do escândalo

Sei que após a próxima curva encontrarei a casa, como se me esperasse, como se sempre estivesse estado ali. Entre as muitas coisas que pressinto, esta se destaca mais certa, mais confiável: A casa sempre está depois da próxima curva. Mas continuo andando, e curva após curva, ano após ano, a casa não aparece.

O que carrego em minha mão fechada queima minha palma. Se é que carrego algo — mas não devo ceder à descrença: carrego algo, algo belo e de alguma importância na ordem das coisas. Tenho um propósito. Uma justificativa.

Observo minha mão fechada em punho. É do tamanho de uma boa pedra. Se eu a abrisse agora, teria certeza. Saberia. Não mais me torturaria dentro das noites, olhando a mão (enfaixada para que não se abra nos espasmos do sono), sopesando o que quer que seja que carrego, que venho carregando: anel, pena de pássaro, papel, olho de peixe, fibras de linho.

Às vezes tenho a impressão de sentir seu contorno contra a dobra de minha palma. Imagino sentir uma aspereza, uma extremidade rombóide que não está ali. É meu cérebro, furioso, febril, que não se conforma com sua súbita obsolescência: Ele diz, “Abre!”, e a ordem se perde antes de chegar nos tendões do punho. A mão permanece fechada, e eu caminho. E por todo o tempo, me permito (não poderia evitá-lo) conjeturar sobre a natureza do objeto precioso que carrego - mas nunca, nunca, sobre a possibilidade de sua inexistência.

Até hoje. Agora estou olhando para minha mão direita, e sei que daqui a segundos ela estará aberta. Já não vale a pena dar mais um passo sem saber. Sem que ordem alguma seja necessária, abro minha mão lentamente. Minhas juntas doem ao se flexionar pela primeira vez em anos. Estalam, e imagino a aspereza calcificada dos ossos e cartilagens deslizando após tanto tempo de inércia. Estou suando frio agora. Meus olhos pregados nas pontas das unhas sujas que se desgarram da palma pálida onde faz tanto tempo se cravaram. Nas linhas pretas de sujeira acumulada.

Seja o que for, é pequeno, ainda não o vejo. Mas Tem que estar ali, penso, e dou um suspiro alto quando minha mão enfim se abre totalmente. O que quer que esteja ali (pois algo deve estar ali) é leve, muito leve, pois nunca cheguei a sentir-lhe bem o peso. E se for uma pluma que o vento já carregou para longe?

Mas não sei, não poderei jamais saber, pois fechei os olhos no último momento. E não tenho, meu Deus, coragem para abrí-los de novo.

Me resigno e recomeço a caminhar, agora com mais cuidado, mais vagarosamente. Nunca notei como é traiçoeiro e ruim este caminho pedregoso, mas me acostumarei com as pedras e os obstáculos irremovíveis.

Trago a mão aberta estendida para diante, como uma oferta, e os olhos fechados que sei que nunca mais se abrirão. E o que mais posso fazer? Nada, além de seguir. E sigo.

- 2003

blastedheath:

Carlo Zinelli (Italian, 1916-1974), Composition, Gouache on paper, 34.5 x 49 cm.

and then I realized they were *all* little people

blastedheath:

Carlo Zinelli (Italian, 1916-1974), Composition, Gouache on paper, 34.5 x 49 cm.

and then I realized they were *all* little people

blameaspartame:
wilburwhateley:

shatranj_ by Luccas-pl

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loverofbeauty:

Cecily Brown,  Untitled, 2013

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Cecily BrownUntitled, 2013

(Source: paddle8, via blastedheath)

thechromenet:

Dubai <3

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(Source: airows)

blastedheath:

Norbert Schwontkowski (German, 1949-2013), Auf See Zu Haus [At sea, at home], 2006. Oil on canvas, 40 x 50.16 cm.

g-german?

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Norbert Schwontkowski (German, 1949-2013), Auf See Zu Haus [At sea, at home], 2006. Oil on canvas, 40 x 50.16 cm.

g-german?

(Source: club-verraco, via therailrat)

I trust the japanese have a word for that feeling you get when you find that an obscure website that you used almost daily gets shutdown overnight.